Ordinary Life is Pretty Complex Stuff



Acontece que desde que eu vi American Splendor minha vida não é a mesma. O Harvey Pekar escreve coisas que são geniais a medida que a minha situação é a mesma que a dele e viver uma vidinha normal que nem essa minha é muito difícil. Nada acontece, e nao resta pra mim pensar em coisas grandiosas: tipo ser um rockstar, um putão, comer uma muher por dia, viajar e eteceteras e pontos reticentes...
Daí, quando pensei nessa tal ordinary life escrevi três passagens.

cena um. bright eyes – first day of my life

No dia em que decide se matar, Carlos muda toda sua rotina. Repentinamente já não mais penteia o cabelo, escova os dentes ou lava os olhos. Já não toma suco de laranja com torradas. Já não lê seu jornal ou dá um beijo nas duas filhas. Já não liga pra seus pais ou abraça sua mulher. Carlos, apesar de todas as mudanças, mantém sua gravata bem apertada, sua camisa bem passada e seu terno bem alinhado. Então, Carlos, sai às escondidas da família quando ainda está amanhecendo. Com olheiras por não ter pregado os olhos na noite anterior, com mau hálito por não ter escovado os dentes, com o cabelo bagunçado por não tê-los penteado e com os olhos remelentos. Entretanto, super bem-vestido. Em seu caminho ele não pensa muito, não tem nenhum arrependimento pré-ato ou chega a pensar nas filhas. Segue olhando os ladrilhos, as pichações, o emaranhado de fios elétricos que levam luz às pessoas (a mesma luz que falta a ele). Por um momento vem uma música em sua cabeça, ironicamente é uma música que se chama First Day Of My Life, ele cantarola mentalmente. Carlos segue até o lugar que escolheu, sobe umas escadas, pula uns muros, e chega ao topo. A altura não é tão grande, provavelmente a morte não seja iminente, mas da maneira que pretende se jogar ela se tornará. Carlos tira suas roupas, com exceção da gravata, e pula. A gravata foi um presente que ele ganhou de seu avô quando fez 18 anos, tinha acabado de passar no vestibular para direito. Junto com ela veio um prendedor, de ouro, com um brilhante no meio.

cena dois. bob dylan – don’t think twice, it’s alright

Os dois estão sentados numa mesa, em um restaurante. Pessoas legais comem saladas e salmão grelhado do lado, pessoas brindam do outro. Uns pedem a conta, e outros sentam-se. O restaurante é dividido entre fumantes e não fumantes. Na parte dos fumantes as cadeiras são mais confortáveis, as mesas mais espaçosas e a luz é menos incidente. Na parte de não fumantes as mesas são menores, as cadeiras menos confortáveis e o ambiente é mais claro. É um desses restaurantes moderninhos, com decoração legal e música de fundo. A música de fundo passa despercebida pela maioria, geralmente o programador nunca capricha, mas essa noite parece ter algo em comum com alguém de umas das mesas .
Lavínia é uma mulher de 34 anos que fuma, mas senta no lugar de não fumantes, ela já não consegue viver com seu namorado.
- Eu não consigo
- Consegue
-Já disse, não dá.
-Tente!
- Cansei
-Não seja assim, eu preciso de você
- Eu também preciso. Mais do que você, e é por isso mesmo que não dá mais.
Ela sai, não consegue olhar direto nos olhos de seu namorado. O que era pra ser um jantar se tornou um fim.

cena três. tom waits – wrong side of the road, blue valentines e temptation.

É a sua primeira dose. Geralmente ele pede cachaça, mas como recebeu hoje, inicia com uma dose de uísque, daqueles que varia entre 10 e 20 reais. João acaba de matar um garoto e recebeu uma bolada. O bar é figura carimbada, o bigode é seu amigo e ele pode escolher a musica que quiser. As duas primeiras doses são de uísque, mas logo depois ele vota pra boa e velha cachaça porque sabe que o mês vai ser difícil, encomenda como essa é difícil de aparecer pra ele. Lá pelas tantas quando uma voz rouca e forte rasga o rádio como um suplício, querendo a salvação, João se levanta já quase bêbado e vai ao banheiro. No banheiro ele improvisa uma carreira de cocaína que conseguiu com o bigode, mija e lava o rosto. Na volta surge uma companhia. Marta é conhecida do bar e de João. Faz o tipo puta, com unhas vermelhas batom forte e brincos de argola. Uma saia, uma camiseta dos ramones. Cabelos pretos, olhos mais pretos ainda e a pela branca, ainda boa. Marta está no alto dos 27 anos e começa:
- Oi Velho.
João se recontorce, sente a alcunha e retruca:
- Oi Puta.
Os dois não são de palavras e é por isso que se dão bem. João sugere cachaça, Marta pede uísque. O bigode intervém, seco, e serve um gim nacional, péssimo, sem gelo nem tônica nem limão porque está em falta.
- Hoje é dia de Punk, deu pra algum cara-naricisista-metrosexual que mora na augusta?
Marta ri e não fala nada, engole o gim.
A noite passa, devagar, os dois quase dançam, mas nenhum leva jeito e o espaço não dá liberdade.

2 Andarilhos:

Vanessa disse...

aonde compro, aonde assisto? eu quero ver quando chegar na cena de ballad of thin man

Larissa disse...

este é blog está cada vez melhor, com esses escritores. deveria ter mais divulgação. bela estréia, "gordo"