Caloura

Sexta-feira. Sete e quarenta e cinco da manhã e o despertador toca. Angélica acorda ofegante, quase como alguém que mal dormiu. Levanta-se rapidamente, ganha um beijo rápido do pai atrasado pelo corredor e encontra o rumo até o banheiro. Um banho rápido e muita empolgação.
Não deu nem tempo de deixar o banheiro todo embaçado com o vapor, coisa que ela mais gosta de fazer. Nossa menina se dirige ao quarto da mãe que dorme o sono dos justos. Angélica deita suavemente ao seu lado e pede gentilmente que a mãe se levante, pois não quer perder um minuto sequer daquele que é sempre o seu dia favorito do ano. Segunda-feira as aulas começam e chegou o dia de comprar material escolar. As duas se apressam e pegam o metrô rumo ao centro da cidade. Nem a lotação do vagão consegue tirar a empolgação da menina, afinal, em alguns minutos ela encontrará o seu mundo mágico. Chegam na estação. Cada passo até as lojas parecem filmados em slow motion, tamanha a emoção contida nos olhos angelicais.
Lá ela estava. Angélica e todas aquelas canetas coloridas, cadernos com cheiro de morango, jogos como inúmeros lápis de cor, borrachas em formato de coração, apontadores automáticos, mochila com o maior número de bolsos possíveis, adesivos, muitos adesivos! Esquadros, será que precisarei de esquadros? Ela guardava o grande momento sempre para o final. A hora de escolher o seu fiel companheiro para o ano todo. Onde todos os seus amigos assinariam no
final do ano e ela o guardaria com carinho numa caixa com todos os outros desde a sua infância. O estojo. Depois de muito pensar, escolheu um supercoloridoflorido estojo. A volta para casa era só suspiros e a sensação de que mais um ano se iniciaria. Estava ansiosa para ver todas as canetas, cadernos e afins dos seus novos companheiros. O final de semana demorou uma eternidade para passar. Angélica arrumou metodicamente cada caneta para o grande dia. Era como começar o primário novamente.
Segunda-feira. Seis e quinze da manhã e o despertador toca. Angélica acorda ofegante, quase como alguém que mal dormiu. Levanta-se rapidamente, dá um beijo nos pais que ainda dormem e encontra o rumo até o banheiro. Um banho longo com direito a todo vapor do mundo.
Roupas e tênis devidamente separados, mochila nas costas, um Toddynho na geladeira e uma Ana Maria no armário e cá está ela pronta para o seu primeiro dia de aula.
No ônibus, todos os pensamentos do mundo. Será que farei bons amigos? Será que os professores gostarão de mim? Será que comprei cadernos suficentes? O ônibus pára. Angélica adentra calmamente o ambiente com um caderno abraçado junto ao peito. Procura o seu nome na lista e caminha para a sala centro e trinta e um. Estranha o número de salas, no seu antigo colégio só existiam doze. Passa pela porta e senta-se exatamente no centro da sala, queria se sentir protegida e ter uma visão privilegiada da sala toda. Os alunos vão chegando aos poucos. De cabeças raspadas, chinelos e bermudas chegava o primeiro grupo. Ela estranho o fato de não terem cadernos. Um outro grupo, eles engravatados e elas de salto alto se encaminha para as mesas do fundo. Alguns carregam notebooks. Não há lousa nem mapas pela sala, apenas um projetor. Tudo parecia confuso para Angélica. Ela questiona se tinha errado o endereço ou o número da sala, mas resolve aguardar. Um outro garoto chega e Angélica se afeiçoa a ele, afinal, ele carregava um caderno e pediu gentilmente uma caneta para ela. Parecia que existia alguém com quem ela conversaria.
O professor chega. Sem pedir silêncio, sem diário para chamada, sem jaleco. Angélica tremia.
A faculdade pode parecer um lugar estranho para alguns.

8 Andarilhos:

Mariah disse...

simplesmente fantástico.
eu já senti isso no cursinho pré vestibular, antes mesmo de entrar na faculdade...

...pofsor...posso ir ao banheiro?

Carol Mioni disse...

Pra quem estudou a noite esse ritmo não é novidade... nada de uniformes, nem de chamada, nada de silêncio, alguns tem material outros não, uns de chinelo, outros vindo do serviço..,sem hora pra entrar, sem hora pra sair... enfim... realidade pura!

Jorge Mathias disse...

Eu tbm estudei e continuo estudando de noite, mas tive uma irmã que estudou sempre de manhã.
Enfim, é só uma crônica, Carol.
Afinal, como dito no texto, a faculdade pode parecer um lugar estranho para alguns. Simplesmente para alguns.

Crispi. disse...

De fato, a faculdade deve ser muito estranha pra quem sai direto do colégio.
E já vou avisando: suas próximas compras de material escolar serão apenas algumas canetas. Seu caderno vai durar muitos semestres, imaculado.

Adorei ;)

Guilherme Schildberg disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Guilherme Schildberg disse...

as pessoas mais legais da faculdade eu conheci no bar.
na faculdade eu descobri a safadeza da vida ;)

imagina essa Angélica no fim do semestre...
vishh..

agora faz um texto falando de um menino... coloca o nome dele de Artur! ou entao substitui esse Angélica por Artur e só...

Marcelo Mayer disse...

concordo com o guilherme! os mais legais conheci no bar. nesses lugares pessoas estranhas não vão. pq vc e guilherme me deram cerveja na primeira semana. e ainda fizemos um som
pobre angélica

carol periotto disse...

adoreeeei o texto!

primeiro porque até a 7ª série (que fique bem claro isso) eu fazia das compras do material escolar um grande evento! passava hoooras escolhendo a mochila com mais bolsos e zíperes possíveis!

e gostei tb porque, apesar de não ser tão inocente quanto a Angélica, a faculdade mostrou ser um mundo mto diferente do q eu imaginava. confesso que me decepcionei um pouco com algumas coisas, mas foram 5 anos fantásticos!

tomara que a Angélica seja tão feliz como eu fui!!!

parabéns pelo texto!