Diga não à música



Sou de uma geração que pegou o último suspiro da fita cassete. Lembro muito bem do dia em que pedi para um amigo me gravar uma fitinha com o melhor do blues de Eric Clapton. E na mesma semana gravara outra fitinha com clássicos dos Beatles para outro amigo do colegial. A sensação era ótima. Sentado na frente do aparelho, ouvia todas as músicas, prestava atenção em cada detalhe para que agradasse meu amigo e também no tempo para que todas coubessem num pequeno rolo de fita com dois lados de 45 minutos. Era um momento em que eu criava uma relação com a música.

Recebia telefonemas de amigos dizendo “cara! Tô com o disco aqui. Cola ai” e todos se reuniam para ouvir, discutir os elementos, instrumentos usados e por ai vai. Passava horas nas cabines das lojas de CD’s porque a oportunidade de ouvir novamente algum disco era remota. Em certas ocasiões era necessário aprender a tocar alguma no violão, com aquelas revistinhas de banca, porque não tinha como ouvi-la sempre.

E de repente criam o mp3. Horas na angustia de baixar uma música de dois minutos e meio, na internet discada, após meia-noite. E ouvi-la depois era muito mais prazeroso. Me sentia dentro da música. Horas e horas de espera compensavam nos dois minutos e meio seguintes. Hoje tudo é mais rápido. Notícias, filmes, passeatas, protestos e a música. Nas mesmas horas que ficava para ouvir uma melodia de dois minutos e meio, consigo toda a discografia do Tom Jobim. Ótimo! Mas, e a música?

Mp3 Player’s parecem mato. Pessoas ouvem música o dia todo com seus milhares de discos e infinitos gigas de cantores e compositores. A música virou ruído. Um disco inteiro passa despercebido nos ouvidos porque você está num ônibus preocupado em descer no ponto. Deixa de prestar atenção nos arranjos porque ao mesmo tempo está lendo uma notícia do seu time que venceu no dia anterior. Aquela letra que poderia exprimir um momento de sua vida é deixada de lado porque você está sendo empurrado na estação da Sé as seis e meia da tarde. Não existe mais contato com esta arte.

A música hoje é ruído, sim. Se tornou um elemento da vida corriqueira de todos nós. Ela se mistura com o barulho do trânsito, com as fofoqueiras ao seu lado, com as construções na frente de seu prédio. Não sou contra a democratização que a internet nos possibilitou, pelo contrário. Acho ótimo a música entrar na casa de todos sem pedir licença. O que de fato se perdeu foi a relação do ouvinte com a música. Porque hoje baixamos mil discos e esquecemos de ouvir um único CD. Deixamos de saber quem o produziu, em qual proposta ele é encaixado ou em qual situação o músico se encontrava na hora que compôs aquela melodia que te agrada. Um simples toque em seu iPod faz com que todas as músicas se misturem, seus discos e seus artistas. Seu aparelho toca uma música do Black Sabbath e de repente uma do Nirvana. Não se ouve mais um disco como se lê um livro: página, por página, capítulo por capítulo. E se necessário reler mais de uma vez.

Não quero ser um purista e defender que as pessoas não sabem ouvir música como antigamente e muito menos que a música de outros tempos é melhor. Não! Essa democratização musical permitiu a troca de informações e com ela novas possibilidades de criar, experimentar e um intercâmbio musical que tem dado certo. Mas experimente ouvir um disco inteiro, na sua sala, ou chamar um amigo e mostrar um som novo que te agradou. Ou fique alguns dias sem ouvir nada e quando for ouvir sua música predileta novamente ela terá novos acordes, novos arranjos e novas sensações. É muito mais prazeroso do que apertar o shuffle no seu iPod enquanto cochila no ônibus indo pro trabalho.

25 Andarilhos:

Lucas disse...

Você tem razão, tem coisas que o tempo leva. É difícil evitar o saudosismo, heheheheeh.

Gostei do texto.

°•~ ∂ąnnι °•~ disse...

Transmissão de pensamento, moço?!
Seja como for, o que vale mesmo é saber escolher uma boa música...
Também estou com saudades!

Bjs!


=)

Jééh disse...

impossível não concorda com isso, as minhas músicas prediletas são aquelas que não ouço sempre, por exemplo ^^

Ricardo disse...

Se não me engano já li esse seu post, por sinal ótimo. Muito parecido com a boa musica...sempre é bom ler/ouvir novamente e sempre.

Bjo!

Dude

Bia Ferreira disse...

também sou da geração cassete (no bom sentido). Quando ganhei um gravador, meu mundo se iluminou...

disse...

Amo ouvir os discos inteiros. Até se baixo, faço uma questão ridicula de gravar cd's pros meus amigos, com as minhas favoritas e tal. Adoro discutir musica (mesmo que quase nao entenda nada, entendo do que gosto) todos me criticam mentalmente por isso que eu sei,mas.. ouvir música nao é 'ouvir ruidos' num aparelho. hahaha tá certissimo e sou da geração que pegou MESMO os ultimos suspiros da fita cassete hahahaha x)

beijos :)

Diu Mota disse...

A música completa tudo o que faço: Ouvindo uma bela canção e navegando aqui no seu blog, por exemplo. Não tem coisa melhor do que sentir uma bela canção, não tem. Agora, a qualidade do que se ouve fica por conta de cada um. O mal gosto existe mesmo...cada um que viva com o seu.
voltarei...
inté

Camila M. disse...

A mesma coisa acontece com os livros. É difícil entender a ironia de Saramago enquanto um funk toca no celular pendurado no pescoço de um garoto no fundo do ônibus.

Vanessa disse...

sei muito bem. as vezes tô na rua ouvindo algum disco e penso: "ué! aquela música já tocou?"
mesmo! a gente não presta mais tanta atenção na música como deveria. talvez deixar meu mp3 em casa pode me ajudar.

Rafael Castro disse...

Apoio essa idéia, malandro!

Eu ainda sou da moda antiga. Baixo um disco na internet em 5 minutos, beleza. Daí chamo o meu baixista, o Fi, sento, acendo um cigarro, "posso pôr pra tocar?" e aí ouvimos sem dizer uma palavra, e depois de novo, e depois no carro, e depois tocamos no violão. Daí uns dois dias, mais um disco.

Fico triste com essa gente que você descreveu que realmente não sabe mais fazer isso. É até estranho e você pode reparar, quando diz pra alguém ouvir uma música: passam 30 segundos e a pessoa PRECISA dizer algo, fazer algo, trocar de música, dizer que lembra outra música ou seja lá o que for; ela simplesmente não consegue ouvir uma só música do começo ao fim. Você com certeza deve conhecer várias pessoas assim.

Marcelo. Todos os seus posts falam de coisas que fodem a gente que cria e trabalha com música. haha. Quer fazer o favor de postar alguma coisa que nos anime, aí?

Tatiana disse...

Ei galera....
Fico impressionada como tem gente de bom gosto nesse mundo! Porém é meio relativo, pois se fosse um blog de funkeiros, com certeza o estilo seria outro. Pois bem, eu queria muito um toca disco, se alguem souber aonde encontro.... Sou muito saudosista, mas percebi uma coisa, a evolução tecnologica nos trouxe beneficios, alias nos trouxe coisas até q nunca precisavamos, hj nao vivemos sem, como por exemplo, o celular.(quando q naquela época alguem colocaria um celular pra despertar do lado do travesseiro, ou atender a uma ligação de uma amiga q viu seu namorado com outra no dia em que vc decidiu dormir mais cedo... as coisas hj são mais para o instante momento, enquanto que nossa época era para o amanha. Nos preocupamos muito mais que o tempo está mais rapido, claro, temos tudo na mao, internet nem se fala da agilidade... Mas a musica é eterna, gente. O que nao temos mais é aquele tempo gostoso de ligar o som e escutar com prazer um cd inteiro, pq hj, pode ter certeza, estaremos sempre fazendo algo em prol para o crescimento da tecnologia... será q somos nós os culpados?

Erica Ferro disse...

É preciso sentir a música, e não apenas deixar que ela entre por seus ouvidos sem causar nenhuma sensação maior dentro do seu ser.

Marcel Hartmann disse...

Mas e quando ouvimos música no computador, sozinhos em casa?

Anônimo disse...

bla bla bla

Tia Augusta disse...

ble ble ble

obrigado por sua opinião tão válida e sincera.

Larissa disse...

faz sentido. quando nos deparamos com tanta coisa, impossível nos dar conta. e isso não é só da música. mas toda forma de expressão.

Sujeito Oculto disse...

Eu tinha uma Basf 90 com o Dookie de um lado e o Nevermind do outro. E gravava o "Beatles Classic Rock" da Cidade. Acho que tinha outro programa de Beatles pirata na Alvorada FM. Essas rodavam no meu walkman. Hoje, walkman é celular. Mas essas músicas ainda rodam no meu iPod.

Mariah disse...

isso acontece também com os desenhos infantis...hoje temos mil heróis de uma vez...em 187 canais diferentes...não dá tempo de fixar nenhum. muda-se toda semana de herói.
quanto aos livros, há quem não leia mais...prefere "ouvir" o livro no carro ou até mesmo no iPod...
tudo é instantâneo...junta, mexe...vai para a internet e pronto.

Vivian disse...

...o bendito vício de se estar
em meio a barulhos, com medo
da própria solidão, nos leva
a ouvir muitas m... achando
lindo!

bj

Maria V. disse...

sim, é vdd. acho q a gente tinha que conquistar a música pra te-la. a música era humana, feita por mãos e não por máquinas. sei lá. a gente escutava oq não queria por uma música que a gente quisesse e ai... passávamos a olhar o novo não como objeto de descarte. mas enfim. acho q a tendência é o equilíbrio, uma hora vamos diminuir a velocidade pra voltar e ver os detalhes q perdemos

Essência e Palavras disse...

Música é alimento...
Amo!

beeejo

marcelo grejio cajui disse...

muito da música hoje parece restaurante por quilo. onde a quantidade manda mais do que a qualidade.

a difusão dos meios, como você bem disse, é a grande responsável pelo que ouvimos.

Também passei por coisas semelhantes.

parabéns pelo texto.

abraço

●๋• тнαi иαรciмєитσ disse...

Gostei disso! Mas ainda acho que há pessoas que sabem apreciar uma boa música e fazê-lo bem. Poucas, verdade.

Angélica Lins disse...

"A música virou mesmo ruído" Por isso te escuto em palavras escritas.

Abraço!

carol periotto disse...

marcelo, faça de conta que eu te dei um abraço, tá?

...pq eu adorei o texto! demais!